Burros sem rabo- Jugurta de Carvalho Lisboa



    – Pai, o Joca ligou e disse que está vindo. Olhei para o relógio, 21:45h.
    Lá fora, aquela chuvinha manhosa e aqui dentro, confortavelmente, com cafezinho quente e pão-de-queijo saído do forno, na expectativa do apito do juiz para o início do segundo tempo: Brasil x Argentina. Meu Deus! Tudo o que eu queria é que hoje não fosse quarta-feira e, sim, qualquer outro dia da semana. Cheguei a pensar numa desculpa esfarrapada. Depois, refleti: se o Joca, que é mais fanático por futebol que eu, renunciou à telinha e está disposto a enfrentar esse ventinho e essa chuvinha fria, seria até covardia não honrar o combinado.
    – Filho, desça e vá abrir a porta. Aproveite e busque as garrafas d’água gelada com a dona Nilza, enquanto eu pego as que estão aqui no freezer. 
    Perguntei ao Joca em qual carro iríamos e ele respondeu que seria no seu.
    – Tudo bem. Mas espere lá. Onde está o sopão?
    – Não tive tempo de recolher antes. Ainda temos que ir a Bento Ribeiro e, na volta, apanhar o que está com a dona Cesarina, no Valqueire.
    – Então, vamos lá. 
    Saímos.
    – Joca, você assistiu ao primeiro tempo? Droga, antes não tivesse visto. Logo de início a Argentina fez o primeiro gol. Tenho certeza de que o Brasil vai virar o jogo no segundo tempo, disse-lhe. - Ligue logo este rádio, já deve ter começado. 
     – Não vai dar, ele pifou ontem e não tive tempo de consertar. 
    – Tá brincando! Por que você não avisou antes de sairmos? Nós iríamos no meu. Agora é tarde, vamos logo, ainda mais com esse tempinho frio, a clientela deve estar varada de fome. 
    Começamos pela Rua Edgar Romero. Primeira parada. Lá estava aquele negrinho esperto, de olhos vivos, nada mais que uns seis meses. Nasceu sob aquela marquise. Sua manjedoura não passava de um amontoado de caixas de papelão recolhidas no lixo, dentro dos grandes tambores plásticos colocados para posterior recolhimento pela Comlurb. O olhar dos pais traduzia a expectativa da nossa chegada. Após um dia de andanças, os burros sem rabo, apelido maldoso atribuído a esses trapos humanos, puxavam suas carroças desde muito cedo, antes mesmo que ficassem de mãos abanando, caso o caminhão do lixo chegasse primeiro. Por isso, madrugavam para disputar com seus parceiros de infortúnio tudo o que pudesse ser convertido em alguns trocados. 
    Lá estava aquele trio, no lugar de sempre e que foi conquistado a custo de muita coragem e determinação. O seu ponto era privilegiado, por estar abrigado das chuvas e do vento sudoeste que soprava impiedosamente. 
    Só naquelas imediações variavam entre doze e quinze. Fizemos a primeira distribuição. Uma caixa de leite repleta de sopa: macarrão, legumes, pedaços de carne. Isto era o básico. Quase sempre eram adicionados alguns complementos para dar mais sustança no rango. As caixas eram cortadas ao longo da borda superior. Depois de cheias, eram dobradas e lacradas com uma fita adesiva, sob a qual, a colher descartável. Cada um recebia, também, uma garrafa de água gelada.
    Não sei se sentia prazer ou pena ao ver aquelas pobres criaturas devorarem a sopa, tal era a esganação com que o faziam. Alguns, mais famintos, comiam rápido e ficavam reivindicando a repetição. Aí o coração doía mais. A fruta era sempre pouca para tanta boca. 
Aquele silêncio característico que reinava no decorrer da comilança, de repente, foi quebrado pelo grito, em uníssono, vindo do grupo da marquise próxima, em comemoração ao gol de empate do Brasil. Alguns até pararam de comer para colocar para fora aquele gooooool que estava entalado na garganta. Outros, a fome era tanta, sequer desaceleraram o movimento com a colher.
    Partimos em direção a Cascadura, onde o contingente era bem maior. Cerca de uns trinta. Durante o percurso, fizemos uma parada para abastecer uma dupla de assistidos. Lá estavam, já camuflados no meio de cobertores sujos e fétidos. Ambos dormiam. Seu Mané foi mais difícil de acordar. Disse ter passado o dia com dores horríveis no tornozelo e no pé. Isso sem contar a sensação de estar sendo devorado por uma quantidade de larvas de moscas varejeiras nas feridas ulcerosas, já em estado de putrefação tão avançado, que deixavam expostos alguns ossos do pé.
    – Levante, seu Mané. Vamos tirar seu estômago das costas; estou até ouvindo o seu ronco.
    Ele nos olhou com cara de quem não sabia o que seria mais importante naquele momento, se tomar a sopa ou permanecer deitado e embalado pelas cachaças que tomara para amenizar suas dores. Depois de muita insistência, o infeliz conseguiu ficar assentado sobre aquela tranqueira imunda, estendeu a mão e começou engolir o rango com tanta má vontade, como se estivesse nos fazendo favor.
    De novo tentamos convencer seu Mané em ser removido para a Toca de Assis, em Cascadura, um abrigo onde são acolhidos os indigentes e tratados com carinho. Teria, ali, suas feridas curadas, cama limpa, refeições regulares, passaria a viver em condições higiênicas que o transformariam, de um farrapo, em um ser digno. Mais uma frustração. É muito complicado tentar entender por que o ser humano opta por uma condição de vida abjeta, atirado ao relento das noites sombrias, transformando-se em alvo de monstros, cuja maldade não conhece limites, enquanto animais irracionais aceitam ser acolhidos. Realmente, essa é uma incógnita que transcende nossa compreensão.
    Normalmente essas pessoas são lacônicas. Limitam-se a estender as mãos para receber a sopa, quase sempre com indiferença, e lançar um olhar que se traduz como agradecimento. Às vezes, alguns se abriam e contavam fatos estarrecedores. Histórias horripilantes envolvendo crimes horrendos e impunes. Atos cometidos num mundo onde prevalecem as leis da sobrevivência.
    Completamos nosso roteiro. Foram distribuídas, nessa noite, mais de oitenta unidades de sopão. A ideia de dever cumprido era falsa diante da tristeza em saber que tudo isso era mero paliativo e não passava de uma ação isolada e irrelevante diante do imenso problema e complexidade das causas da miséria humana.
    Tão logo deixamos o local, ouvimos o espocar de fogos e a gritaria de um grupo de pessoas que comemoravam o segundo gol do Brasil.
    Isso caiu como um antídoto temporário contra nossa desolação diante de tanta desgraça. Afinal, uma vitória contra a Argentina tem sabor de Copa do Mundo.



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