Helga Maria Martins de Paula


Tudo (ou nada) sobre mães

Eram muitas...
Poucas olhavam para trás (sequer olhavam para a frente)
e sob a imensidão colorida,
viram seus filhos partirem
Solta nos trilhos, no concreto,
perdida na promíscua morada dos anjos
é recepcionada pela imagem da criação
suplantada por um Michelangelo falsificado e incrivelmente belo
Seus olhos indiferentes fitavam cubos de plástico
Opacos, sujos, maleáveis
como as feições da sensibilidade em feitura
e dizendo CHEGA quase se quebra na noite amarela
Como última anfitriã de uma casa em ruínas
bate-se em sua porta
Quase muda, quase surda, quase nada
“Entre, a casa é sua”
Então, desesperadamente,
abre, trêmula, o armário
e já salgada, fecha-se:
é mãe novamente

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 Quando Woddy Allen encontra Ed Wood 


Apolo azul de sorriso largo,
Desfilou no tapete vermelho de seda, tímido,
Rápido, roubando descaradamente uma metade perdida
Era quase sem querer que olhava
E doía...
As armas colocadas estrategicamente em nossas mãos
E ela tentava prendê-lo com “ois”, gostos e músicas geladas
E  ele a calava, a falava, a soltava
E ela não queria...
Qual a graça de ser despertada e continuar deitada,
Fingindo sentir mãos estáticas?
Nenhum abraço, carinho, códigos indecifráveis
Difícil demais,
Diferente demais,
Amor sem legenda, imagem e elenco:
O mocinho chorava escondido em um altar de marfim
A mocinha ria de seu destino já definido em um roteiro de filme B com um que de Woody Allen...
Pretensiosamente desafiava: queria ser vilã
Mas, boa cristã, continuava distribuindo alegria
Cor-de-rosa, vermelha, amarela e verde
Seu mocinho azul não se desapontaria...
Será?
Ele observava desconfiado, medroso
Mal sabia do estrago já feito:
Pedaços da agora coadjuvante espalhavam-se na vitrine das incertezas
Ela, triste e distante, destoava das nuvens ao seu redor
E a melodia iniciava sua sina de mis e dós
Dó do andar sobre as águas pesadas do não e da certeza,
Nunca teria coragem de dizer,
Se ao menos as palavras fossem sis e lás evaporáveis
Ele longe ia,
Em um chão dourado e brilhante
Longe, longe...
Apenas um eco de satisfação e desprezo ecoava
Ela preferia acreditar que não,
A negação é a melhor inimiga do tempo...
Já transparente ela seguiu rumo à ponte,
Chorou diamantes que ele nunca veria,
Escreveu poemas que ele nunca entenderia
E sumiu com a chuva fina.
Sobem os créditos finais.

(Poesia vencedora do VI Concurso de Poesias da OAB/SP)




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