Obra: “Sobre trechos duma vida” Parte do capítulo: “O Solar dos Gonçalves” - Idemar de Souza



Do seu mal afinado violão as cordas zuniam a produzirem sons desarmonizados com a sua voz, a parecer que levavam juntos, em conluio, os gemidos da alma do cantor, aos confins do mundo. Às vezes, dos seus cansados olhos, pingos de lágrimas, suas únicas, solitárias e fieis companheiras, porque brotadas de si mesmo, escorriam languidamente pelas faces, por onde se extravasavam sentimentos de profunda dor, a compor um quadro de tristeza imensa. Mais pingos, e outros, e outros mais percorriam o mesmo rastro deixado pela imensa mágoa, até que o notável pedreiro os enxugasse, à manga da camisa, ao findar duma canção miserável. Ao final da cantoria, punha-se a requerer mais do que muitas desculpas, uma infinidade delas pela sofreguidão imposta aos assistentes, sem motivos confessados. A plateia era limitada a Otelo e mais alguns dos seus filhos, todos afetados de compaixão. O pequeno Miguel percebia, posto que sem conhecer da causa do desvario, que o ritmo, a melodia e a harmonia naqueles musicais das noitinhas mornas, à porta da sala, eram um emaranhado amorfo, inatual. Neste homem se externava um langor não casual, uma paixão doentia e profunda por uma determinada mulher que talvez esgotada com os seus desajustes de 76 toda ordem desaveio e distratou todos os pactos então com ele havidos, sobretudo os amorosos. Miguel, muitos anos após, viu outros dois, já quarentões, ao cavaco um e ao violão o outro, em dupla, de olhos alienadamente fechados, mas de forma tão leve que um respirar que mais profundo fosse dum qualquer simpatizante ali presente, ensejaria que eles se abrissem, preguiçosamente. Eram formidáveis os irmãos. Já se foram ambos deste mundo, mas Miguel ainda os ouve tocando, quase a miúde. Tocaram com alguns dos maiores cantores e cantoras do Brasil e do exterior. Herdaram do pai, filho de espanhóis, esta imensurável sensibilidade à música. E, de sua vez, para mostrar que também era hábil nesta arte, o velho ali, ao derredor, entusiasmado, punha atravessado o violão às costas e tocava, ludicamente, a levar os assistentes, admirados com a façanha, a gargalharem repetidamente. E, também, de ordiná- rio, era dado à prática de generosidades tangentes aos seus funcionários, já que industrial próspero e de outras incontáveis virtudes que faziam dele um homem admirável. Agora Miguel já havia desenvolvido uma razoável percepção neste campo. Então, podia degustar com toda propriedade estas sonoridades adocicadas. Já estes moços, maduros, não choravam nem gemiam de dor como o pedreiro apaixonado. Apenas fechavam com leveza os olhos e as cabeças liberadas das coisas terrenas pareciam viajar extasiadas por todo o universo, durante aquele brevezinho sono dum viés impregnado de sensualidade. Os seus dedos automatizados a dedilharem as cordas, estavam naquele certame em contato com os instrumentos musicais, mas as cabeças... Estas estavam a vagar ao longe, muito ao longe daquele 77 melodioso sítio, rico em sonoridade. Estes não cantavam a se estardalharem. Mantinham-se silenciosos como que dormindo num jeito singular de tocar, de sentir e de sorver aquela musicalidade.







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