O passado é uma ilha longínqua (ou um arquipélago) que vem boiando na memória e às vezes, lança âncora. São pequenos episódios, fatos pitorescos, lembranças boas, recordações preciosas. As recordações antigas passam na memória como borboletas brancas, surgidas misteriosamente.
Lembro me bem, amado irmão Alvim Barbosa, com saudade imensa, suavemente doída, do nosso fraterno convívio nas situações várias, felizes ou adversas. Refugio-me em seu legado poético para amainar a dor da sauda-de.
Poemas de rara beleza, testemunhas de amor, angustia... bus-ca e solidão... faço deles minha homenagem irmão querido, por existir em nossas vidas, mesmo vivendo em outra dimensão. Nos-sos laços afetivos – solidários nasceram do encontro fraterno de nossas almas, como a beleza se criou do encontro da Lua com as Águas.
“Estas presentes na sinfonia primordial da tua ausência “ na fecundidade de seu silêncio e na beleza de seus poemas.
Nostalgia (1956)
A ansiedade da chegada
derramou alegria nos meus olhos.
Colhi ilusões pelo caminho,
recordei paisagens esquecidas,
fotografei árvores mortas.
A casa velha dormia em silêncio,
e o vento sul soprava forte.
Os coqueiros em adeuses de esperança,
iluminados de luar, se confundiam.
Montanhas azuis emolduravam a noite
na paisagem sem fim dessa beleza.
Passos e vozes conhecidas.
Surpresas e lembranças pela sala.
Noites escurecendo o dia.
O mar em ondas de agonia
recordava velas que foram e não voltaram.
O vento sul espalhava areia preta
soterrando estrelas abandonadas pelo mar.
Conchas vazias namoravam luas
e os rochedos adormeciam solitários,
com a nostalgia do crepúsculo
e o deslizar suave das estrelas.
O dia da partida se anuncia,
na distância que surge silenciosa.
Lágrimas escorriam pela face pálida de minha mãe,
Rainha da alvorada!
Em seguida o cansaço, rei absoluto
e a nostalgia da volta nos meus olhos.
Busca (1956)
Madrugada fria plena de agonia e solidão.
Madrugada fria no meu coração.
A aurora já vem raiando...
Sufoco no peito os sonhos presentes.
No passado bem sei que não estou.
O futuro é névoa sobre abismos...
Cansado de mim mesmo, eu me procuro.
Eu me procuro, desesperadamente,
no fio d’água que passa por entre as pedras,
na voz dos pássaros sobre os arvoredos...
Eu me procuro, esperançoso,
no olhar do mendigo solitário,
e entre a multidão angustiada.
Sinto que devo estar em algum lugar.
Talvez, no brilho longínquo do luar,
ou na voz musical do vento...
O tempo na ponte (2002)
Tempo cansado, destruindo a cor
subjetivamente.
Ganhar o tempo acima da solidão.
Do que é possível tudo se perde.
Recuperar o tempo.
Talvez a emoção traída se transforme.
Ponte incomum. O rio é largo.
Não tem limite nem direção. A ponte é só.
Não passarei do gesto. A água turva te afogará.
Este impulso no tempo proporcionará o tom.
Descobrirei teu rosto em minhas mãos.
O som da água entre meus dedos,
canção de teus cabelos.
Havia a ponte. Preferiste o rio.
Violentei-me no choro do teu naufrágio.
Perdeste o tempo. Ponte em ruínas.
Poema (2002)
As águas batem de manso
na praia do meu silêncio,
deixando conchas vazias,
espumas cheias de sonhos.
Gaivotas passam de leve,
singrando o mar infinito
com mensagem cor de neve
para a minha solidão.
Um navio cor de lua
aportou no meu silêncio
com imagens suicidas
dos sonhos desencontrados.
Mas volta o vento da noite
e voltam as águas do mar
arrastando pelas praias
as vozes do meu silêncio.
*
Com o testemunho do grande poeta Paulo Bonfim, amigo fraterno de Alvim Barbosa, finalizo minha homenagem “Alvim Barbosa foi um dos mais belos talentos de sua geração culto e generoso tenho dele as mais gratas das lembranças. Sua memória, para mim, sempre representará aquele jovem cavaleiro andante lutando contra moinhos de vento e deixando na terra a marca de seu sonho.”
Aldair Barbosa – 20/10/2025
Aldair Barbosa mineira de Resplendor, reside em Ribeirão Preto desde 1947. Licenciada em Letras, Língua e Literatura Portuguesas e Inglesas pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras “Barão de Mauá”. Autora de “SILÊNCIO VERDE - Vida e Obra de Alvim Barbosa”, seu primeiro livro, lançado em agosto de 2013

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