CONCEIÇÃO LIMA- O TÚNEL

 










Naquele dia, o mundo decidiu brincar com as regras. Acordei com a sensação de que o tempo estava... poroso. O ar parecia mais leve, como se os átomos tivessem desaprendido a se manterem unidos. E eu, que prezo tanto ser pontual, coisa rara, havia dormido além da conta e estava bastante atrasada. Ao chegar à garage, procurei pela chave do carro... e nada de encontrá-la. “Ah! Não!”. Desolada, me encostei na porta do veículo... e fui tragada direto para dentro. Sem barulho, sem resistência, como se o aço tivesse se tornado névoa...
“Será que ele pode funcionar sozinho, sem chave?” – sorri irônica. Podia... e eu ousei. Fui em frente! No caminho (“Seria loucura?”) vi um gato atravessando uma cerca como se fosse fumaça...
 Parei no estacionamento do Instituto. Olhei para as mãos. Para os pés. Para a porta do carro. Nada parecia diferente. Mas nada estava igual...
 Na entrada do prédio, vi alguém atravessando uma parede de vidro sem quebrá-la. Um senhor passou direto pela catraca, sem sequer notar a parafernália de reconhecimento facial... Definitivamente, o mundo não era mais o mesmo!
 Entrei na sala já em meio à conferência. No tablado, o palestrante falava exatamente sobre a nova perspectiva da Mecânica Quântica: partículas que atravessam barreiras impossíveis. E deu um exemplo banal: “Imaginem uma borboletinha da planície tentando atravessar uma enorme montanha. Suas pequenas asas não teriam energia para chegarem ao topo... Praticamente impossível!... Mas, no mundo quântico, essa borboletinha pode simplesmente ‘aparecer’ do outro lado do morro, como se o tivesse atravessado por um túnel invisível”. 
 Aliás, informou ele, neste ano de 2025, o Prêmio Nobel de Física foi concedido exatamente a três pesquisadores que demonstraram esse tunelamento quântico, em que uma partícula consegue atravessar uma barreira de energia que, segundo a Física clássica, ela não deveria jamais conseguir ultrapassar.  E isso, praticamente, abriria portas ao impossível... E se conectaria com a ficção científica, com a filosofia, com a espiritualidade...
 Eu não via a hora de poder levantar a mão e perguntar: “E se isso acontecesse com a gente?”
 O palestrante sorriu, achando que fosse uma metáfora:
“Então, viveríamos num mundo onde o impossível seria apenas improvável.”
 Olhei pela janela. Lá fora, uma criança atravessava uma árvore. Não ao redor... através de... Sorri para mim mesma... Eis que, naquele dia, o mundo estava “tunelando”. Não era feito de muros...  mas de possibilidades!  

*****
Quando o Mundo “Tunela”

Há dias em que o universo respira diferente...
As leis da Física cochilam
e a realidade escorrega por entre as frestas do possível.
Lá vem o tunelamento quântico,
brincando com o cotidiano...
O mundo, então, deixa de ser sólido,
as paredes não são mais limites,
mas apenas véus.
As portas não se abrem
se atravessam.
O tempo não corre... se dobra.
Tunelar é dançar com o improvável.
É ensinar ao mundo que barreiras são apenas sugestões.
Imagine um pensamento que toca outro coração sem palavras.
Um passo que cruza o abismo sem ponte.
Tunelar é a poesia da improbabilidade se tornando gesto,
como se o universo piscasse para nós e dissesse: 
“Hoje, não há muros. Só possibilidades.”
Nesse instante, tudo muda.
O impossível se curva. O improvável sorri.
Eis o milagre que a ciência não chama de milagre,
o sim que atravessa o não,
o amor que chega antes da saudade,
o caminho que se abre sem chão.
Se o mundo “tunelasse” todos os dias, 
viveríamos entre o toque e o sonho,
entre o cálculo e o encanto,
entre o átomo e o abraço.
Mas... talvez ele já “tunele” em silêncio
na coincidência que emociona,
no encontro que não se explica,
na lágrima que cai antes da dor.
Porque, no fundo, 
o tunelamento quântico é só uma forma elegante de dizer:
“A vida sempre encontra um jeito de atravessar!”



Ribeirão Preto, 14 de outubro de 2025

*
Conceição Lima, mineira de Alpinópolis, é Mestre em Educação pela Universidade Federal de São Carlos, Doutora em Letras pela UNESP e Pós-doutora em Linguística (linguagem no meio digital) pela UNICAMP. Pesquisadora e Docente da Universidade Estadual de Minas Gerais e da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, trabalhou também na Eletrobrás – Furnas (coordenação pedagógica do respectivo Centro de Treinamento e assessoria técnico-administrativa da Superintendência de Operação de Furnas).
Hoje em dia vem atuando como Escritora (com 23 obras já produzidas) Palestrante, Jornalista, Radialista e Apresentadora. Atualmente é membro fundador da Academia Feminina Sul-Mineira de Letras, membro eleito da Academia Ribeirãopretana de Letras, membro veterano da União Brasileira de Trovadores, colaboradora do Museu das Oraturas e Literaturas do Sul de Mi-nas Gerais (Museu da Conversa Macanuda), além de associada a diversas entidades abertas de cunho nacional, especialmente lite-rárias, ligadas à sua área de atuação.
Ribeirão Preto, 14 de outubro de 2025

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