Um dia Mário de Andrade nos brindou com “Amar, Verbo Intransitivo”.
Deixando para lá o enredo, que não é do agrado geral, fico no título e sobre ele medito: “Amar, verbo intransitivo”. Para Mário de Andrade, eu amo. Ponto final. Eu amo porque amo. Eu amo por amar. Eu amo. Não interessa o que. Se amo alguém, se me amo, se amo o próprio amor. Porque não seria um verbo transitivo. Nem direto nem indireto. Mas um verbo intransitivo, sem qualquer complemento. Eu amo. Apenas.
Não, não é assim. Para mim amar é um verbo transitivo. Quem ama, ama alguém, ou ama algo. Ainda que ame a si próprio. Ou uma coisa desprezível. Mas ama com complemento. Portanto prefiro a outra forma: “amar, verbo transitivo”.
Falo hoje não do amor, sentimento sublime, que une pais e filhos, que eleva, que apura, que doa, que tudo… Não. Nada disso. Falo do amor sensual. Ou melhor, da paixão quando denominada amor.
O que seria do mundo sem esse amor-paixão? Já teria acabado há muito tempo. Por tédio, por inércia. Por verdadeira inação.
Só agimos sob o signo da paixão.
Vê-se de longe quem é, e quem não é, apaixonado. E não falo de quem está, ou não está, apaixonado. Porque não se trata de “estar”, mas de “ser” apaixonado. Como uma qualidade que a pessoa carrega consigo.
Os apaixonados se arriscam, se lançam, se atiram, vão mais longe, querem chegar a algum lugar.
Diferente de quem não ama ou não tem paixão: se deixa ficar, não busca, não sonha, não vai…
A paixão é o sal e a pimenta do viver. Tempera a existência, dá gosto. Desperta o prazer de viver.
Quanto mais se é apaixonado, aquela paixão que cega, de adrenalina, que faz acelerar o coração, que tira o fôlego, mais feliz se é.
Colocar paixão em tudo – no estudo, no serviço, no que se faz por gosto e também em tudo que é feito somente por obrigação – torna a vida mais leve.
Portanto, ser intensamente apaixonado nos torna melhores humanos, nos leva mais longe do ponto de partida.
Esse verbo amar do amor-paixão tem de ser conjugado diariamente para que a vida valha a pena ser vivida.
Mas, para mim, deveria ser modificado um bocadinho: o verbo amar não poderia, jamais, ser conjugado no tempo passado.
*Maria Alice Ferreira da Rosa, natural de São Paulo/SP, Procuradora de Justiça aposentada, é blogueira (Blog de Alice – Alinhavando letras), poeta e escritora. Publicou os livros “Alinhavando letras” (2013); “Pena e poesia” (2016); “O pescador de Sorrento e outras histórias” (2019); “2020 – O ano que não vivi” (2020); “120 poemas” (2022); “Filomena, a lagartixa valente” (2023); “O pião orgulhoso” (2024), “Um jogo de outros contos” (2025), participando, ainda, de mais de 30 antologias no Brasil e em outros países.
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Crônica de Maria Alice Ferreira da Rosa,
em destaque, na página14,
da 72a. Revista Ponto & Vírgula (julho/agosto/setembro/2025)

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