Pegadas- Elisa Alderani


             O vento soprava leve naquela madrugada de maio. O mar dançava calmamente e jogava a espuma branca até a praia deserta trazendo os riscos esbranquiçados longínquos do horizonte, e o azul fundia-se na cor cinza do céu. O sol se escondia por trás de uma grande nuvem pesada e sem forma definida, não deixava passar seus raios luminosos, parecia não ter forças, naquela manhã, para abrir a sua eterna porta do céu.
            Na praia ninguém estava observando tão rara beleza. Ela sozinha, uma mulher, caminhava lentamente afundando com doçura os pés na areia gelada e úmida na subida da praia, no rastro da alta maré da noite anterior de lua cheia. O mar tinha-se retirado aos poucos. Envolvida no silêncio, somente o ninar das ondas que vinham e voltavam faziam-na sentir-se leve como pluma. Uma alegria diferente das outras manhãs rotineiras apoderava-se dela. Aproximava-se aos poucos do mar, pensativa, serena, curtindo este mágico momento da madrugada; encantava-se com sua imensidão. As palmeiras mexiam seus galhos escondendo a última estrela no céu.
  Ela acordara bem cedo, a despeito das amigas que dormiam até tarde. Desde criança ela fora acostumada a despertar cedo, pois criada na roça, aprendeu que assim  o dia rendia mais e nas horas mais quentes podia-se descansar. Esse costume ficou enraizado nela, até quando foi trabalhar e estudar na cidade.
            Ah, o mar! Ele era seu fascínio, sua delícia, amava-o de coração apesar de tê-lo conhecido tarde, na idade adulta, quando as condições econômicas lhe permitiram viajar.
Agora, um passo depois do outro, nessas lembranças, nem se deu conta já estar tão perto, pisando na areia ainda mais molhada. Seus pés deixavam pegadas profundas e também suas histórias de vida afundaram com elas, somente o mar as podia escutar. Ele escutava cantando, no mesmo ritmo a mesma melodia, e ela falava sempre mais alto com sua voz grave, suas palavras tornaram-se lindas canções.
 Uma mulher sozinha com o rosto enrugado pelas intempéries da vida, as mãos calejadas pelo trabalho pesado, mas com o coração doce de menina. Deixara, finalmente, naquela madrugada, o fardo pesado de sua vida nas águas do mar.
 Com coragem imensa, dirigiu-se ao seu amado com os braços abertos na onda mais alta que vinha ao seu encontro para beijá-la e abraçá-la.
 Em seu lugar surgira das águas uma linda sereia que flutuava e sumia nas ondas, cantando junto com o mar a mesma melodia.
 O sol finalmente brilhou e iluminou seu rosto, e ela se deixou beijar e levar sempre mais longe, mais longe, ninguém ouvira mais seus cantos melodiosos.
             Na praia dourada, ficaram as suas pegadas profundas que, devagar o mar levaria para ninguém jamais encontrar.








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