O POETAS ENSINAM A VER!- Aline Cláudio

    

     Essa foi a frase que escutei em um vídeo, encaminhado por minha mãe, poeta, provavelmente desde o ventre de minha avó, sua mãe. E se essa máxima for verdade, então meu filho, de quase 2 anos, provavelmente se mostra um dos maiores e mais importantes poetas do século XXI. Milo vê tudo. Vê o avião lá em cima, no alto, passando entre as nuvens. Tão pequenininho, que eu, com meus poucos graus de miopia, mas com a prescrição em dia dos óculos, não percebi. Paro e observo. Quase nem vejo. Mas quando vejo, também percebo que as nuvens, que estão logo ali, bem na minha frente, têm um ar imponente, mas amigáveis. Logo depois, Milo, com a atenção de um peixinho dourado, se impressiona com uma manchinha no vidro, tão minúscula, que eu, com minha mania de limpeza, deixei passar. Coloca o dedinho em cima e diz “olha, mama!” Meu instinto é pegar um paninho para tirar aquela mancha teimosa. Aquela manchinha e Milo compartilham da quase mesma teimosia. Cheia de si, a mancha me enfrenta: “Tá vendo? Você me ignorou, mas finalmente alguém me notou! É preciso uma delicadeza na alma para alguém ver o quão interessante posso ser”. Escutei o desabafo com educação, mas logo depois, dei um fim a ela. Talvez eu, que me sinto tão empática com problemas alheios, não tenha tanta empatia assim por manchas minúsculas e teimosas. 
    Minutos depois, Milo me mostra uma sujeirinha no sofá. Essa, ele conhece muito bem, afinal é um quase microscópico farelo de pão que ele mesmo deixou cair ali. Depois de chamar minha atenção, pega com seus dedinhos, tão pequenininhos e grudentos de um resto de laranja comida há minutos, vai até o lixo da cozinha, abre o lixo e o joga lá. Bate palma, olha sério para mim e vai procurar algo que nem ele mesmo sabe o que é. Olho para o lado e o farelo continua ali, no sofá, bem tranquilo, ao estilo de “nada me abala”. Ignoro, afinal, olho mais à frente e vejo que, escondido em baixo da almofada laranja, que Milo já reivindicou para si mesmo, e há de quem se encoste nela, há uma congregação de farelos. Tenho duas opções: me levantar e buscar o aspirador de pó para limpar aquele grupinho, ou ir atrás de Milo, que, na sua motoquinha azul e desconhecendo limites de velocidade, vai até meu quarto. No caminho, Milo para para reclamar que há algo em seu pé. Levanta o pé, e para minha surpresa, é um pedacinho de macarrão fusili cozido, mas já seco, com molho de tomate. Chances enormes de que ele tenha escapado da fúria do apetite de Milo no jantar de ontem à noite. Milo estende o pé e diz - Tira, mamãe! - ou pelo menos essa é a tradução simultânea que faço, porque, na verdade, não tenho ideia do que ele diz. Tiro, e ele resolve que não vale a pena ir até o quarto. Volta com sua motoquinha modelo desconhecido, fabricação chinesa, para a sala. Lá vou eu atrás. Milo pega o bloquinho de construção para montar uma torre que ele mesmo constrói e destrói segundos depois. Milo não para. Sobe no sofá, desce do sofá, sobe na caixa que já falei 25 vezes para subir, quebra a caixa, cai, chora, vem para o meu colo, sai do meu colo. E eu, sentada no chão, noto a sujeira embaixo do sofá e não consigo me lembrar da última vez que o arrastei para limpar. 
    Milo olha para a foto dele e do pai no porta-retrato atrás de mim e diz “Papá!”. Olha para a janela, para o céu, para a nuvem lá em cima, que agora parece nervosa e a ponto de explodir. Outro avião! Me mostra. O avião desaparece, Milo vê o trenzinho do outro lado da sala e vai em direção a ele. E eu, sentada ao lado do vidro, vejo uma manchinha. A mesma manchinha teimosa. Pensava que tinha acabado com sua farra. De repente, me sinto culpada. De repente, aquela manchinha se torna algo mais importante para mim. Me faz lembrar de Milo e de como, com seus quase dois anos, me faz ver o mundo de uma maneira completamente diferente. Me faz desacelerar, mesmo quando Milo é sinônimo de pura aceleração.        
     Aquela manchinha deveria ser agradecida a Milo. Milo a descobriu, a fez ser vista e, graças a Milo, ela vive. Mas só até eu comprar um limpa-vidros. 


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Texto de Aline de Oliveira Cláudio, em destaque na página 15, da 69a. revista Ponto & Vírgula (outubro/novembro/dezembro/2024)




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