Danilo olha o relógio. O tempo passa. Os crimes prescrevem. Mas sempre há um propósito, mesmo que ninguém dê por ele. E é, pelo menos, em conjunto ou em partes, a autoafirmação, o exercício do poder, a projeção da conquista. Algo que nasce, germina e se mantém com vida, sustentado pelos hormônios dos predado-res, estes em suas espantosas variações, em todos os graus de hostilidade e ternu-ra, entre atos de gentileza e de brutalidade. Todos nós somos descendentes dos descendentes dos descen- dentes... – talvez o fruto de amores recíprocos, talvez a consequência de estupros violentos, que a um e a outro os séculos diluíram até que não restasse o menor vestígio de esperma. E todos os que existem hoje são filhos, próximos ou distantes, de cada momento de invasão, de consumação da posse, do assédio e do assalto, herdeiros genéticos de todas as forças antagônicas que regem e deformam o mundo. Tantos séculos de guerra, e o homem (o ente masculino da espécie) desprendeu-se, não se importa de ficar sozinho, de trocar de mulher, de ter mais de uma mulher, porque, nas longas jornadas que envolviam as missões expansionistas, só o que interessava eram as fêmeas ocasionais, que pudessem ser violentadas e abandonadas. E quantos de nós, desde as inconcebíveis bifurcações da história, das miscigenações à força, portamos em nossos genes a marca de todos esses eventos específicos, atos sexuais entre os conquistadores e as mulheres dominadas, casos que soam insignificantes do ponto de vista mais amplo da história, mas que podem ter sido decisivos para que eu e você estivéssemos aqui hoje. A vida perdurou, de ser em ser, assim como um tigre e uma gaivota são todos os tigres e todas as gaivotas que os formaram. Enquanto o tempo passa, passam a morte e o sofrimento. Melancólico, lembrando mapas. Espaços em que a maldade marca seus pontos. Nem tudo é maldade, mas seu peso é maior. Sua memória é de sombra. A paz é um intervalo entre duas guerras. Nossa ocupação da Terra nunca aconteceu sem dor.
Do romance “Marcas de gentis predadores”.
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Texto, em destaque, na página 14 da 69a. Revista Ponto & Vírgula (outubro/novembro/dezembro/2024)
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