ELEONORA - CARLA BARIZZA

 







    


    

    Eleonora acordou, subitamente, sentindo seu corpo paralisado, e desesperou-se ao perceber que sua boca e seus olhos não podiam se abrir. Não era sonho e nem pesadelo! Era real! Não havia sensação muscular, contração ou relaxamento, nem respiração, como se, dentro dela, não existissem mais os pulmões. Constatou a impossibilidade de sentir algo: calor, frio, arrepio, texturas. Estaria nua ou vestida? Encontrava-se em pé ou deitada?  Levitava? Não sentia nenhum aroma, não ouvia nem o silêncio, tudo que aprendera a sentir não existia mais. Estaria surda, cega e insensível? Em coma? Morta? Isso era morrer? Seria ela, agora, o que chamam de alma ou espírito? Por que apenas sobrara a consciência? Seria um defeito de sua suposta morte, a consciência ter sobrevivido? Reparou que sabia seu nome: Eleonora. Esquecera de tudo antes daquele momento? Silenciou seus pensamentos a espera de alguma lembrança. Tudo estava branco e vazio. Encontrou apenas estes pensamentos. Tinha ciência que todos utilizam um sobrenome, mas qual seria o seu?  
    Estava morta ou nascendo? Que loucura! Conhecia os sentidos, a capacidade de perceber a tensão muscular, os aromas e sabores, as texturas e as temperaturas, contudo não era mais possível a ela experenciar tais sensações. Tentou em vão mexer os dedos dos pés e das mãos, notando a inexistência deles naquela nova composição corpórea. E, então, desistiu de compreender, por minutos entregou-se aquele destino insólito, como uma folha seca, solta de sua árvore, perdida em meio a uma forte ventania. 
    Cessou seus pensamentos, por um breve momento, e entregava-se a calmaria perplexa da desistência, quando, inexplicável e velozmente, suas lembranças ressurgiram, explodindo em fragmentos rápidos, misturadas as sensações violentas e másculas, de alguém que deveria amá-la, como flashes de imagens, via uma mão forte segurando uma grande lâmina brilhante que ziguezagueava de maneira veloz, lembrou-se da sensação de horror que percorreu todo seu antigo corpo ardente e suado, de seus gritos pulmonares escancarados por sua boca desesperada, de seus músculos paralisando-se sequencialmente, face as punhaladas brutais que cortavam sua carne, de suas lágrimas descendo ferventes e abundantes misturadas a um aroma adocicado de seu sangue quente, que escorria, numa textura macia e grudenta, acariciando sua pele dilacerada, e por fim, viu quando um branco vazio invadiu seus olhos e emudeceram seus lábios gélidos. Reviveu suas últimas lembranças, aterrorizada, contudo, não possuía um coração para disparar e nem olhos para arregalar. Percebeu-se reduzida a um desenho de linhas finas, sem cor e imóvel, num papel carimbado qualquer, em meio a uma pilha de milhares de papéis carimbados e iguais! Enquanto sua consciência, incompreensivelmente, continuava viva.


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JÉSSICA


    Jéssica sonhava com todos os tipos de asas e cores, sentia uma grande alegria pela vida e amava carinho e cafuné, corria o dia todo, sempre sorrindo, perseguia o voo dos passarinhos, se divertia maravilhada com as piruetas malucas das borboletas, e a insistência das libélulas em pairar em cima da água. Que magia poder ter asas, pensava, que liberdade poder voar e colorir o céu!
    Se movimentava, andava, dançava ou corria sempre de braços abertos, o tempo todo, imaginando que tinha asas, e desenhava lindos sonhos no ar enquanto seu sorriso, doce e brilhante, iluminava sua pele, e seus abundantes cabelos encaracolados flutuavam no ar, impulsionando sua vida.
Sua vontade de voar era tanta, que um dia, seu pai, que vivia acariciando onde não podia e pedindo para ela pegar onde ela não queria, chegou para pedir o mesmo de sempre, e então, ela ficou imóvel, fechou os olhos com tanta força, as pernas com tanta vontade, cruzou os braços com tanto fervor, que de suas costas brotaram grandes e fortes asas, que jogaram o pervertido no chão e ela pode, enfim, alçar um voo de fuga lindo e colorido, e voou com tanta plenitude que disparou para bem longe, onde poderia apenas brincar do que amava de verdade. 
    E Jéssica nunca mais parou de voar, e percorre o mundo, onde todos os dias, lá do céu, ela presencia a tristeza das infinitas crianças que vivem o que ela viveu e que não sabem que podem criar suas próprias asas e fugir para brincar do que quiserem.

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Carla Barizza é formada em Comunicação Social / Publicidade e
Propaganda. Trabalha como Produtora de Comunicação Visual. Ama criar histórias escritas e desenhos inusitados sobre o universo feminino. Cria fotografias abstratas.


www.carlabarizzacontos.wordpress.com

Instagram: @carlabarizza.foto.arte

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Páginas 13 e 14 da Antologia "Depois do vazio... o verso!"




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