Tarde de domingo e ela sai do seu quarto de hotel em São Paulo. Caminha pelas ruas e decide pegar um Uber até o Bixiga, para almoçar numa cantina que conheceu há dez anos. Chegando, percebe que a cantina fechou. Um vizinho informa: “Foram os tempos difíceis.” Lamenta e pede para o Uber deixá-la no shopping mais próximo. Lá, avista uma franquia de um restaurante charmoso e se lembra do risoto de macadâmia com tiras de filé mignon, que experimentou há cerca três meses num shopping do Rio de Janeiro. Entra animada e pede o cardápio. Por um segundo esquece-se de que os cardápios impressos tornaram-se artigo raríssimo. Sorri para o garçom, pede uma coca cola, sem açúcar, e acessa o QR code adesivado na mesa. Procura o risoto, mas não encontra. As letras são pequenininhas, ampliando e salivando impaciente, chama novamente o garçom. Ele diz que o risoto não está mais no cardápio. Justifica: “Precisamos inovar sempre, senhora. O público enjoa.” Conforma-se e pede uma sugestão. “Penne ao curry com azeite de trufas brancas, senhora”. Está bem, por favor! Olha de um lado para o outro e cede atenção ao celular. Entra no Instagram e vai passando, passando, até que vê uma foto do ex-namorado com ela em um restaurante.
“Ops! Não! Não sou eu!” exclama em voz alta. Olha novamente pros dois lados, inclina-se como se fosse enfiar o celular dentro dos olhos. Amplia a foto com os dedos. Visualiza o rosto da moça. Morena, olhos verdes, como os seus. Lê a legenda. “Jantando com o amor da minha vida”. Balança a cabeça: “terminamos há cinco meses e temos uma foto juntos, quase idêntica a essa e com a mesma legenda. Corre as postagens e verifica que ele já a apagou. Reflete: “Deve fazer muito tempo, não me dei conta.” Chega seu Penne. Não demorou nem quinze minutos, conforme prometido. Volta pro hotel e tenta reassistir “Meia noite em Paris” de Wood Allen, mas não está disponível em nenhuma plataforma de streaming dos Apps no seu celular. Acessa um filme qualquer sugerido. Suspira e diz em voz alta: “tens razão, Bauman, o mundo é líquido.” Em seguida tem a nítida impressão de tê-lo escutado respondendo: “Não, minha cara, se eu ainda fosse vivo, o descreveria como gasoso” ... e assiste ao filme como num exercício de desapego, mas pega no sono. Acorda num susto. Já é segunda. Sai pro trabalho.
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Regina Baldini
Nascida em São Paulo e criada em Ribeirão Preto/SP.
- Pós-graduada em Gestão de Pessoas pela FAAP, atuou como Consultora de Recursos Humanos antes de se entregar inteiramente ao universo artístico.
- Desde 2013, mergulhou no teatro com paixão e dedicação, estreando nos palcos com a peça "Condomínio da Cidinha" em 2022, em curtas temporadas pelos teatros de Ribeirão Preto/SP e Teatro Cândido Mendes Rio de Janeiro/RJ.
- Professora de Teatro.
- 📖 Autora dos livros: Tira o Pé da Minha Marmita – volumes 1 e 2, publicados pela Editora Qualitymark – Rio de Janeiro/RJ.
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Páginas 78 e 79 da Antologia "Depois do vazio... o verso!"

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