UM ANJO DE PASSAGEM - IDEMAR DE SOUZA

 










    O tempo passa mediante um compromisso formal, ordinário e oneroso, com a natureza! Todavia, ele passa de modo aleatório... ele não tem compromisso com quem ficou para trás. E aquele ano de 1947 ia passando assim... indolentemente, quase que desapercebido, como um velho e cansado caminheiro passa, mas quando atinados, o buscamos, ele já está longe dos nossos olhos, até que não mais possamos vê-lo!

    E não houvera, mesmo, na fazenda Flora, até então, naquele ano, alterações significativas nas coisas do dia a dia. Ele se foi passando, calmamente, sem alarde, até que um fato novo trás, de repente, inquietação à família Briador. Morre, na fazenda, logo após o alvorecer, no início de uma semana de inverno, uma recém-nascida, neta de Antônio, o empregador de Otelo.

    Permanecera, por muitas horas agonizando, a pequenina criatura e, por fim, despediu-se, para sempre. Nascera com problemas insolúveis de saúde, pelo que o médico recomendara que lhe dessem todo o carinho, até que lhe chegasse a hora final. Um caso irremediável exclamou, com alguma tristeza, o médico! Da última vez que lá esteve, disse à família, como se vaticinasse, que aquele pequeno ser se iria, entre vinte e quatro e quarenta e oito horas! Só um milagre salvaria o anjo! Uma sentença aterradora... Ainda assim, para aquela mãe inconsolável, mas por ser uma católica fervorosa, o prognóstico se parecia quase otimista! Uma esperança havia... uma chance... a ocorrência desse milagre... um efeito, embora, sem causa! Coisa que apenas Deus seria capaz de operar... e como ele existe, esse milagre poderia acontecer... claro que sim! E quem sabe não aconteça, ainda hoje, o vaticínio... esse doce milagre! Deus é grande... ele pode, pensou consigo, a mãe, reverentemente!

    O cafeicultor Antônio, proprietário da Fazenda, tinha muita estima por Otelo. De sua parte, este procurava não dar o que falar. Entendia, muito bem, os limites da confiança que do patrão obtivera e os das suas obrigações de cada dia. Ele não misturava as coisas: pau é pau... pedra é pedra! A sua “criança”, que era livre, quase que demais, era o diferencial! Estar ao lado dele, era como se não existissem problemas ao derredor... nem mais ao longe! Ele estava sempre de bom humor! E, como sabido, a convivência com pessoas assim, quase sempre apraz, mas ao acaso, esse desprendimento contagiante pode dar ensejo ao nascimento de alguma manifestação de antipatia, claramente imotivada, advinda de pessoa refém de depressões – que devem ser analisadas e tratadas! - Este mal estar perene, depressivo, não serve a ninguém! Mas a vida tem dessas coisas: põe-nos, às vezes, diante de imbróglios, quase sempre inesperados, loucos para nos abater.

    Pessoas com o perfil de “criança livre”, qual Otelo, são frequentadoras, assíduas, do “parquinho”, onde habitam as alegrias... melhor dizendo, as fantasias. Vivem, nele, consumidas por ideias pueris e, então, não sobra tempo para se lembrarem das coisas tristes e trabalhosas, porque, se forem lembradas, elas chegam com um montão de problemas, de várias naturezas e, quase sempre insolúveis... e, aí, elas acabam com a festa e nos tornam tristes, infelizes!

    O Dinho, aos oito ou nove anos de idade, pouco mais ou menos, que era filho de José Joaquim - e este, amigo de Otelo e que eram vizinhos e parceiros no jogo de truco - era assim: gargalhava, gostosamente, de tanta alegria quando, jogando bola, nos seus frequentes passatempos, troçava o menino adversário, ao lhe passar a bola por entre as pernas. Essa alegria sua, contagiava! Nunca foi visto triste, o Dinho! Dava gosto vê-lo gargalhar... Dinho, amigo de Miguel na adolescência, embora bem mais novo é, hoje, colega de profissão. Ativa com brilhantismo, na Comarca. E, não por acaso, montou uma banda com seus irmãos, que eram dez, e se diverte, por aí, alegremente... e vai morrer alegre um dia, como dizia, muito tempo depois, o brilhante médico, Dr. Digmar, irmão de fé, de Miguel.

    Elas, as “crianças”, vivem as circunstâncias boas do momento... por que não? Estão sempre a fim de ir brincar ou então, estão tomadas por uma febre alta, em casa, aos cuidados da zelosa mãe... O futuro, o bom futuro, é uma grande fantasia que todos nós aguardamos que ele nos chegue um dia, a nos tornar felizes... Parece que é lá que a felicidade mora, nesse futuro imaginável... Mas a grande verdade é que, o que se tem para amanhã, não conta! Essa preocupação com o futuro, de nada vale, a menos que pudéssemos fazer o amanhã, do nosso jeito... para conhecer novos parquinhos, é claro!

    O fato é que as alegrias, quando estão para chegar, e que ficam delas sabendo as tristezas, as coisas ruins se vão embora, de fininho, e as boas acabam por chegar e se acomodam no entorno! Claro que não é tudo assim... tão misterioso... desse jeitinho... como uma mágica! Mas parece ser, a uma percepção, que seja razoavelmente sutil! E, se você não se dobrou, ainda, aos encantos que a mitologia nos propõe - “ela é a origem e a fonte do homem  sobre a terra”... di-lo Jung - feito presentes envoltos em inimagináveis fantasias e coisas do gênero, que encantam as nossas almas e alivia as nossas dores, dobre-se a ela, agora!... Ainda dá tempo! E, se precisar de uma ajudinha para se decidir, conte com “Jung”, o maior, entre todos os conhecedores do assunto que o mundo já produziu... ele sabe tudo, acerca disso... faz parte dele... é por onde a sua obra, monumental, se edificou!

    Ela, a mitologia, que contém um montão de adoráveis fantasias e todas elas levíssimas no seu conteúdo, nos conta umas “mentirinhas” engraçadas – e que, há muito, já sabíamos mentirosas - mas gostosas de se ouvirem, como a que nos contam os nossos filhos, quando pequeninos e sem envolver nenhum compromisso de nossa parte, e que nos diverte muito e, de sobra, nos move o riso, gostosamente... E, aí, pomos os nossos dentes à vista. Eles, os dentes, riem... basta acreditar! E não há, nisso, nenhum efeito colateral, danoso! Além do mais elas, as fantasias, nos liberta das preocupações miseráveis, que se propõem, aos poucos, a nos destruir ... Então, passamos a viver levemente, sem culpas, sem preocupações vazias, como os seres olimpianos vivem! No campo delas, das fantasias, tudo é possível! Elas são um bem para as nossas almas! E que vantagem você, leitor, leva por se manter, triste? Deixa isso pra lá... deixa de ser tolo... pois não é verdade, como dizem, que o bem sempre suplanta o mal? Esse enunciado é meio falacioso, cheio de rebarbas, mas nós acreditamos nele... Ô!

    E não havia, mesmo, para Otelo, o tempo da perdição... apenas o da salvação. Odile, embora severíssima, se desmanchava por ele! Eles se amavam. Não havia, entre eles, greves de carícias! Os seus lençóis – ah! os lençóis - alardeavam a cumplicidade havida entre esse marido e essa mulher... Mas é porque esse sertanejo “criança”, danado, divertido, meio salpicado de safadeza – safadeza daquelas positivas, é claro – mas sobretudo, honrado e bondoso, dava conta do recado, em todos os sentidos. Fazia as coisas que devessem ser feitas, naturalmente, sem atropelos, sem fadigas, sem culpas... Mas não entendam, erradamente, essa conversa meio fiada! Ele não era um feiticeiro da hora!

    Miguel se lembra do momento em que Otelo se despediu dessa vida... Foi tudo igualzinho ao que sempre dizia um mineirinho, seu velho amigo por mais de cinquenta anos, desde a São Sebastião do Paraíso, lá em Minas, pelos anos de 1912, quando se conheceram: o Inocêncio, o seu “Cênço”: “morreu como um passarinho!” Ele, que guardava na alma, todas as velhas tradições mineiras, no dia da morte de Otelo estava lá no hospital. Veio para saber do doente, mas em face da precariedade da saúde do velho, resolveu fazer companhia ao filho, meio triste, meio inseguro. Dar-se-ia, logo adiante, o desenlace do amigo, admitiu para si. Só por um milagre passaria daquela noite! Otelo, sequer o reconheceu, quando Cênço lhe tocou, lhe falando o nome; e nem retribuiu ao aceno do amigo! Mas não queria admitir, “Cênco”, pela fé e pelo carinho que tinha ao velho amigo, que ele morresse naquela mesma noite. Foi pura coincidência. Sua visitinha haveria de ser rápida! Só continha um propósito: visitar Otelo e virar no pé! Pode ser que as suas almas já soubessem a respeito do desenlace. Mas as almas não se comunicam conosco... Coisas de Deus... muito distante do nosso pequeno mundo embora, às vezes, nos metemos a saber mais do que podemos!

Continua.............

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Parte do Conto de Idemar de Souza nas páginas de 30, 31, 32, 33 e 34... continua até a página 50, da Antologia "Depois do vazio... o verso!"

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Idemar de Souza é graduado em Direito e Ciências Sociais. Gosta muito de escrever. Participa de todas as Antologias Ponto & Vírgula. Membro da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto.



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