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O
“Platero” de Otelo. (18º capítulo)
Violento era um solípede
quadrúpede vigoroso.
A alcunha de Violento, que
ostentava pelo desusado corpanzil, e sua relutância acirrada a aceitar maus
tratos, parecia adequada, a um casual circunstante, numa primeira vista, embora
julgasse Otelo, que esta pecha caracterizasse uma injusta difamação; mas
decidiu manter-lhe o nome, para que o animal não sofresse os dramas da
adaptação a um novo apelido. Parece que já havia se acostumado com o ofensivo
nome.
Há lembrança, meio vaga, que
Miguel ainda guarda consigo, do modo com que Otelo desqualificava o seu
anterior proprietário, quando o assunto sobre o Violento era tocado. Mas o
fazia com elegância, entre os familiares, é claro. Não queria causar nenhuma polêmica,
nesse respeito. O trouxa daquele peão meia
tigela, era desprovido de órgãos sensoriais e de nenhum saber sobre as
atividades em que se envolvesse o gado equino, o vacum ou outro qualquer. O
pobre homem não tinha qualquer vocação para o ofício que escolhera.
Otelo já houvera sido
carroceiro, dos bons. Sabia sobre o que falava. Pelo carroção puxado a quatro
burros, sob a sua batuta, transportavam-se do roçado às tulhas, ou a distintos
paióis, jacás e jacás de milho, que se encontravam amontoados na palhada, em
porções equidistantes, a espera de serem removidos para melhor se
protegerem.
E, de cátedra, conhecia quando o
animal era vadio, arredio, alienado ou mesmo safado, vagabundo. Mas também
sabia, quando o animal, já cansado, fazia jus um descanso, a uma água fresca e
um carinho, testa abaixo.
Otelo dizia, ensimesmado, que já
havia curado dores de barriga dos seus comandados equinos, com cerveja caracu,
dada pelas suas narinas. Era tiro e queda. Um português, das antigas, ao ouvir
estas histórias, que eram verdadeiras, certamente exclamaria: “Me melem”!
O animal, que tracionava
carpideiras, plantadeiras e o carrinho, a conduzir os familiares de Otelo por
aquelas estradas conhecidas, atendia à indicação dos trilhos já sulcados e se
desvencilhava dos buracos perigosos, que poderiam ocasionar solavancos e causar
algum transtorno. Não era difícil, naquelas circunstâncias, que uma roda caísse
numa daquelas locas, bem profundas, cavadas pelas grossas enxurradas, em tempos
de verão e levasse o carrinho a tombar.
O animal, todo branco, de
circunferência volumosa, a encher os varais, e de quase nove palmos de altura,
de pelos luzidios, para gáudio de Otelo, era uma garantia de ida e volta, onde
quer que fossem, a quaisquer lugares, em segurança. Era como se fosse um
escravo robusto e serviente, que lutasse pelo seu senhor, ainda que fosse, a
morte, um risco iminente. Violento sempre foi tratado por Otelo e familiares,
como animal de estimação; só não dava para tomá-lo ao colo, é claro. O seu peso
era equivalente a algumas dezenas de arrobas. Jamais se usavam relhos contra
ele. Não era necessário. Nem lambadas de chicotes, no machim. Otelo repudiava à estas maldades.
Para mudar de velocidade, quando
determinado pela pressa, bastava tangê-lo com as rédeas, para que de trote,
galopasse, moderadamente, sem contrariedades, sem arroubo, sem truculência.
Sua anca farta, sua altura
considerável e contornos laterais largos, e músculos salientes, amedrontavam
aos que o enfrentavam pela primeira vez.
Era um engenho inteligente, à
disposição de Otelo!
Violento não era mau, nem
violento era. Era bondoso, amigo, solidário, muito responsável, de fidelidade
ímpar. Até havia, entre ele e os familiares de Otelo, certa cumplicidade. Nunca
se percebia, nele, uma manifestação, qualquer, de zanga.
Não era, seguramente, o Violento, um “Platero”, aquele do Juan – o andaluz
universal - de Moguer, na Andaluzia, o
burrão do Otelo. Mas era, para aquele camponês da bucólica Brodowsqui, um amigo
fidelíssimo e, sobretudo, uma verdadeira âncora.
O Platero de Juan era muito mais do que isso. Ele e Juan eram
íntimos. Tinham os mesmos deslumbramentos. Falavam de si, um ao outro, como
fazem os humanos. Faziam, juntos, as refeições à mesa, e até frequentavam
saraus, dizem. Platero transcendia!
Esse ser, era humano, em forma
dum quadrúpede? Será que Juan era, também, um quadrúpede? O que era um. O que
era o outro?
Entre Platero e Juan não havia hierarquia, mas entre Violento e Otelo,
sim, havia, embora meio velada. O respeito do caboclo de Caetité, pelo animal,
era infinito.
Nem lobisomens, os mais
endiabrados, que se diziam vagar pela mata do Martelo, cuja mata margeava parte
daqueles caminhos, inquinados de boatarias malignas, amedrontavam o gigante.
A mata do Martelo formava uma
espécie de capão, muito comprido, em que as árvores, frondosas, comunicavam-se,
pelas copas, com as demais do outro lado da estrada, de modo que se formava uma
espécie de túnel, estreito e longo, que enegrecia, ainda mais, à noite, este
trecho do caminho, dado que o clarão da lua não lograva penetrá-lo, a causar
arrepios aos transeuntes, contaminados de cisma. Parecia uma passagem para o
inferno!
Diziam-se, destes demônios
lendários, que enquanto o galo não cantasse, pela madrugada, pela primeira vez,
eles permaneceriam, por ali, a infernizar a vida dos passantes, crentes.
Acreditava nisso, piamente, alguns. O Tonhão até já tinha visto, muitos deles,
a caminhar ao lado do seu carrinho. Eram altos, negros, cabeludos, de olhos
graúdos e vermelhos, faiscantes e ameaçadores. Um verdadeiro diabo. Tonhão se
dizia gelado e mudo, quando via um deles a cortejar sua viatura. É que Tonhão
não tinha, à sua frente, um Violento a conduzi-lo.
Por ali, só passavam, à noite,
após escurecer, aqueles que, posto sabendo da existência destes afligentes,
demoníacos, não havia conseguido realizar as tarefas necessárias, do outro
lado, enquanto fosse dia. Então, não havia remédio: arriscavam-se.
A família de Otelo, quando
voltava da cidade, noite à dentro, já sabia de tais inconvenientes, embora
fosse recomendada para que tivesse cuidado com aquelas almas perdidas. Qualquer
xingamento resultaria numa desgraça inominada. O correto jeito é que não os
enfrentasse, com os olhos. O que os olhos não veem o coração não sente; era o refrão
entoado.
Mas, quaisquer sinais de
fantasmas ou anormalidades visuais ou sonoras, sentidas por Violento, nesta
parte do caminho punha-se o agencioso animal, de orelhas em ponta e se mantinha
sereno, no mesmo empenho, de antes.
Com esse modo de agir, parecia
querer ocultar algum perigo, mesmo que já soubessem, muito bem, aqueles
estradeiros, do significado das suas orelhas, assim postas. É que ele tinha
consciência do seu potencial de combate, ainda que fosse contra aqueles temidos
lucíferes. Apenas alguns corcovos que manejasse, poria medroso, o malfeitor, em
disparada. Nunca deixou na mão, ao Otelo e aos familiares, aquele trator de
ossos, músculos, carnes e, certamente, de alguma faculdade além, já posta a
serviço desses laboriosos roçadores.
Imaginem se ele resolvesse que
haveria de empacar no meio do caminho! Naquela escuridão, o que seria? Não. Ele não faria isso. Varava, calmamente,
aquela estradazinha, desviando dos buracos e só estancava, quando de frente
para a jararaca que resguardava entrada do solar de Otelo, ocasião em que um
dos privilegiados passageiros haveria de descer para destrancar aquele
obstáculo rudimentar.
Isto já era tarde; quase
entrando pela madrugada. Ainda bem que o dia seguinte, quase sempre era um
sábado, ou um domingo. Esta aventura, em meio à semana, seria tida por uma
destemperança, que não passaria, sem dúvida, pelo crivo de Odile, a grande
matriarca.
Otelo havia panhado o animal de um tropeiro insensível, que dizia não saber
como dominar aquele animal selvático.
É que tropeiros não se
interessam em saber da vida dos seus animais. Só o lucro lhes interessa. A
convivência é passageira, quase repentina.
O bicho era brabo, dizia o agenciador. Pela força bruta, que ostentava,
impossível manejá-lo, a não ser que se lhe desse tratamento de choque, como
faziam certos peões, pais d´égua,
pagãos, que por ali compareciam, com a finalidade, única, de amansar animais
valentes, feito o Violento.
No caso, punham o animal a
tracionar por uma quaiera ligada por
correntes a uma tora de madeira grossa, muito pesada, com cerca de três metros
de comprimento, sob chicotadas, por um longo tempo, até que aquele pobre ser,
em sopa, esbaforido, bufando pelas ventas e a espumar, pela boca e sovacos,
sucumbisse àquela ignorância tosca, reprovável.
Algumas vezes de aplicação deste
expediente cruel, seria o bastante para transformar um animal natural, livre,
arredio, num animal pacífico, subserviente, até maneiro.
O nome Violento parecia conferir
ao grandioso animal um quê de indócil.
Ainda potrilho, diziam, nas
redondezas, que o pobre diabo já ostentava muita força e uma rebeldia indômita,
até que Otelo o trouxe, para si, por compra feita, depois de escolhido duma
burrama.
O anterior proprietário já se
houvera, com ele, em guerra, pelo seu comportamento hostil. De início, já sob o
domínio de Otelo, até parecia ser arredio o quadrúpede solípede. Qual nada. Era
só um animal que sabia gostar de si mesmo. Queria ser respeitado. Até amado,
quem sabe!
Otelo, com seu modo natural,
seguro e singular, na lida com os seus animais, não transmitia sintoma qualquer
de arrogância ou prepotência para com nenhum deles. Seus olhos, que eram
mansos, levavam, até eles, certa proposta de cumplicidade, quanto ao respeito
recíproco e sinceridade de propósitos.
De outro jeito, também não dava,
a nenhum deles, mostra de receio algum, na sua forma própria de abordá-los.
Otelo só queria ser justo. Não admitiria, de nenhum, tretas milongueiras.
As exigências, dispensadas a
todos, era conforme as circunstâncias requeridas pelas tarefas. Todavia, no que
tangesse, especialmente, ao gigante, de quem Otelo conquistou, de imediato, a
simpatia, parecia haver um tratamento inquinado de preferência.
Otelo quedara-se, diante daquela
alma cândida!
O grandão, logo se submeteu às
primeiras tarefas que se lhe impuseram, sem arroubo que fosse algo de
incontrolável, nem mesmo algum sinal de desaprovação ou descontentamento.
Quando o burrão executava
tarefas diurnas, a serviço de Otelo, especialmente durante o verão, de calor
intenso, e suasse muito, como era natural, ao chegar o fim do dia, ele recebia
cuidados especiais. Era quando se jogava, sobre ele, ao final da faina, água
fresca, em abundância, para retirar todo o seu suor. Depois, recebia o carinho
da raspadeira, destas, ou quase igual a estas que se aplicam, hoje, aos cães de
estimação, porém grande, na medida dele, aplicada com alguma força, para
retirar alguns pelos rebeldes ou aliviá-lo de alguma coceira inoportuna.
Otelo jamais admitiu que o
burrão servisse aos trabalhos que envolvessem o uso de cela. Jamais o burrão
teve, sobre si, um arreio qualquer à monta, um cutiano, que fosse - de extrema elegância, um tanto diferente de
outros modelos de sela - mesmo para
singelas atividades pastoris. Era virgem, o burrão, neste respeito.
Também não conheceu suplícios
provocados pelo bridão, que fosse por
imposição de Otelo. Os bridões causavam mal estares aos animais, dizia o pai de
Miguel. Para as atividades praticadas pelo burrão, não seriam necessários estes
expedientes ofensivos, muito menos aquele equipamento em forma de serra, aguda,
chamado, por alguns, de freio, a encimar as ventas. Poderia provocar feridas.
Um animal cheio de privilégios,
segundo diziam os vizinhos, vazios de sentimento.
De quando em quando,
reservava-se um tempinho, para uma averiguação, em todo o seu corpo, sobre uma
possível existência de carrapatos e outros parasitas daninhos, que pudessem
estar a supliciá-lo. As orelhas, as ventas, o rabo, as partes baixas, também
eram objetos destes cuidados. Até um eventual pedrisco, entranhado no casco,
que pudesse causar ao animal, alguma dor, era objeto da inspeção. Além do que,
o casco era cortado, aparado, toda vez que aparentasse alguma desconformidade.
O casco deles, guardadas as devidas proporções, são como as nossas unhas dos
pés. Se mal cuidadas, causam-nos transtornos.
Ainda mais, quaisquer sinais ou
sintomas, que chamassem, ainda que de leve, a atenção dum casual observador,
posto que descompromissado com a saúde do quadrúpede, mas que tal notícia
chegasse ao conhecimento de Otelo, isto daria causa a uma inspeção percuciente
do magnífico exemplar eqüino.
Violento, neste passo, era o
privilegiado, dentre os outros animais. Ao depois de raspado, seis espigas de
milho, graúdas, já descascadas e água fresca, de beber, eram servidos em
abundância; uma porção de sal grosso, para estimular a ingestão de água para
recomposição do líquido perdido. Era o
seu prêmio. O carinho e o bom trato, talvez fosse o fator a relevar-se no que
toca, a fazer dele, um ser de uma performance incomparável.
O paiol ficava bem ali, ao lado
do curral, com o fito, claro, de facilitar a logística. Para evitar que
murídeos danificassem o alimento, mantinham-se gatos em boa quantidade, por
ali. A estes felinos não eram servidas refeições nenhumas, para que eles
tivessem como alimento, único, suas presas naturais, apanhadas no paiol,
mormente à noite, impulsionados pela fome.
Logo acima, o forno rudimentar
coberto, precariamente, de telhas, em cujo forno se assavam milhos verdes,
pães, broas e roscas servidas, estas, em fetas, pela manhã, com café e leite,
enriquecido com adição de açúcar demerara.
O forno era aquecido a lenha. Depois de
o braseiro ter cumprido o seu papel de aquecimento, era retirado e, então, eram
introduzidos os alimentos, encimados de folhas de bananeira, uma espécie de
proteção às guloseimas.
De volta ao burrão, a força
hercúlea que ele exercia, para frente, por meio da “quaiera” ao pescoço, era quase a mesma que poderia exercer na ré, através daquelas correias
componentes do arreio, a contornar-lhe o traseiro. Não havia aclive que o
detivesse, por mais pesada que fosse a carga posta no carrinho.
Otelo até já houvera recusado
algumas propostas, polpudas, de compra, do precioso trator vivo. Mas, coisa de
estimação, dizia ele, não se vende, por dinheiro nenhum. Era perceptível o modo
gentil que lhe dedicava aquele agerato camponês. Era bom, ter por perto, um
parceiro dessa qualidade, dessa natureza, no pensar de Otelo.
Esse estimado animal até causava
inveja a alguns poucos amigos que, eventualmente, visitava o caipira, de
vivência simples, ocorrida nas cercanias da católica e itálica Brodowsqui de
Miguel, a cavaquearem, descontraidamente, por longo tempo, a fio, sentados em
bancos rústicos, sem o devido capricho de acabamento, assentados à beira da
porta da entrada principal da casa, fumando, prazerosamente, um cigarrinho de
palha, dantes preparado, sob a luz de lampião - a induzir a um observador
qualquer, uma solidão acabrunhante - e que alumiava ao redor, até um pouco mais
adiante e cuja chama luziluzia ao sabor do vento leve, morno, e persistente,
daquelas noites cálidas.
Vez ou outra, um relâmpago ao
longe, riscava o céu, de cima até embaixo, a despertar a atenção dos
circunstantes e dar ensejo a uma prosa passageira sobre a eventualidade de dias
chuvosos, logo mais adiante. Semana que vêm... Quem sabe?!
Quanto ao Violento, teria de
haver um dia, em que ele viesse a ser vendido.
Era possível que Otelo o dispusesse, por injunções alheias à sua vontade,
mas, o mais provável, porém, era que seu bom patrão viesse conceder-lhe uma
digna aposentadoria compulsória, pelos bons serviços prestados, com reserva do
melhor pasto, de água fresca e cuidados com a crina, com os cascos, para não
racharem a evitarem-se infecções danosas; as melhores espigas de milho;
raspadeira, semanalmente e, ainda, um carinho nas faces. Violento
compreenderia, muito bem, o que significaria isso.
Pena que o talentoso animal não
pudesse reproduzir suas virtudes em outrem. Cruzamento impróprio, dos pais, lhe
houvera roubado esta faculdade.
Uma
pena, que fosse híbrido. Seria um bom raçador.
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