Marcos Zeri Ferreira



Nosso Pão Quântico

               A reflexão sobre o quê e em quê acreditar hoje, que nos dê certezas mensuráveis e newtonianas está cada vez mais paradoxal. A neurociência e a espiritualidade estão cada vez mais intrincadas. Palestrantes de todo o mundo discorrem e tentam fazer o link entre os dois caminhos. Os elementos atômicos pela sua pequenez assustadora para o olhar materialista que gostaria de apalpá-los e trancafiá-los em tubos de ensaios, escapam a qualquer tentativa de aprisionamento. Apesar dos cientistas, físicos e matemáticos conseguirem formulações que provam a sua existência fora do tubo de ensaio e da fita métrica e da balança, não conseguem transformá-los em material palpável que garantam certezas absolutas sobre a sua existência e comportamento. Tudo é muito vago, paradoxal, sua existência se manifesta dependendo do observador, da intenção, do livre-arbítrio, e agora podemos inserir o elemento Fé para confirmar a sua existência.
Para muitos físicos o Universo é um grande holograma tudo interligado de tal forma referendando o que a Bíblia diz que: “não cai um fio de cabelo das nossas cabeças se não for pela vontade do Pai”. É cada vez mais forte o sentimento de que Jesus ensinava física quântica usando um simbolismo rudimentar em forma de parábolas diante das multidões que o ouviam. Os princípios herméticos nos levam acreditar que também era física quântica. Você pode mudar sua corrente vibratória. Você cria moléculas de emoções importantes para o seu bem-estar. O Budismo, o Xamanismo, todas as disciplinas religiosas levam a crer que estão intimamente ligados ao Universo quântico, fractal, incansavelmente se auto-criando, expandindo e se contraindo, implodindo e renascendo em novas formas e complexidades. O Zen, quando alguém pergunta: o que é isto, afirma: “não é isto nem aquilo” o que quer dizer? Novamente o quântico embasando o pano de fundo sem fundo, criando milhares de possibilidades e unindo o observador e a coisa observada como causadores dos colapsos criadores do que se pode chamar de realidade. Para alguns físicos o Universo é um holograma criado por um pensamento descomunal e misterioso.
                Então, com relação ao elemento Fé, podemos perguntar: o que é isto? Você sustenta a sua Fé? Consegue fazer com que ela evite suas noites mal dormidas, pensamentos assustadores que a ciência chama de TOC (transtornos obsessivos compulsivos) que as tradições chamam de o Adversário, forças desagregadoras, ou demônios causadores de todo esse mal estar? O que é fé racional? É aquela que não aquece meu corpo e coração? E o que chamamos de fé cega, não passa de um instrumento comandado pelo medo da morte e das penas do inferno?
Penso que o homem ainda nutre uma vaidade muito grande quando se trata do seu aperfeiçoamento moral, ético, espiritual. Há vozes oportunistas dentro dele criando fantasias de onipotência que o impedem de dobrar os joelhos em sinal de respeito ao Pai-Universo. Dessa forma ele impede que as energias vindas de um portal desconhecido distinta da essência humana, se comuniquem com ele divinizando-o. Fora dessa energia extraordinária que uns chamam de Graça, outros de Samadi, outros de consciência intensificada e ainda outros uma experiência de pico, de fusão sentida por um homem, num determinado espaço-tempo, em que ele se sente unido com todos os planos do Universo, que num átimo de segundo lhe são revelados. O que pode o humano se auto-aperfeiçoar se não estiver conectado a essa força? A sua própria Vontade, embora necessária e fundamental, ainda é fraca para que ele atravesse o portal divino. Sem que o Espírito Santo o possua, o homem por si mesmo está longe do vôo das águias, continua a rastejar tal uma cobra voadora que não se sustenta na leveza, diante da gravidade.

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O Sagrado e Eu


                Quem é Você que me toca profundamente, que está além dos cristais, das sedas, das púrpuras, das pompas, das glórias humanas? Quem é Você que se revela num gesto de ternura, no brilho da lua, no pôr-do-sol, no berro do trovão, nas larvas do vulcão, na potência de um raio, na mais ínfima partícula? No canto dos pássaros, nos campos floridos, na aridez dos desertos, na alegria das crianças? Quem é Você encastelado no jogo dos contrários, na ingratidão, na crueldade dos gestos violentos, das palavras destruidoras, do desalento de quem tem medo de desmontar, literalmente?
                Quem é Você que aparece na ausência dos deuses, circula entre fantasmas, habita na incompreensão, nas tolices dos gestos efêmeros? Que me põe caraminholas nos pensamentos, que se esconde no meu buscar, no fazer, no acreditar em algo mensurável, como se permitisse aprisioná-lo, que roubasse o seu poder? Quem é Você que habita no silêncio, no inaudível, nas galáxias, nas profundezas dos oceanos? Que fabrica serotoninas, endorfinas, permite onipotências e loucuras, faz-me ajoelhar e sentir o ridículo de mim, um eixo desaprumado na trajetória?
                Quem é Você que se esconde no mendigo, no sem-teto, no ódio dos descontentes, na pieguice dos fartos, na bondade burguesa, na caridade dos que se doam, nas castas, nos excluídos, nas balas com sabor de sangue? Que se mistura na fartura e na fome, na luz e nas sombras, nos daimons e na figura do Criador? Quem é Você que habita os mitos, as tentações, a desolação dos descrentes, que lampeja nos parias, na escória, nos lixões, na flor de monturo e nas mesas fartas? Habita no silêncio, no inaudível, está além da melodia e do encantamento? Estampado no Outro, intransponível, fugidio, distante das reflexões metafísicas, das fórmulas filosóficas? Que desperta amor, doa o seu Filho e consagra outros avatares para serem crucificados, incompreendidos, seguidos por poucos no meio de tanta religiosidade? 
                Seja Você quem for, não me apague esta vontade de buscá-lo, de senti-lo em lampejos fugidios, de interpretá-lo com estreiteza de compreensão, de me enganar, de delirar a seu respeito, de entender um grão que seja dos seus propósitos. O mundo, nesse apressamento de desvendar a matéria em todos os seus aspectos, se esquece do sagrado, como se qualquer reflexão nesse sentido fosse tolice, fruto da mente e da fantasia. Busquemos o espaço sagrado que cada um tem para descobrir e vivenciar dentro de si. Dessa maneira, daremos sentido aos versos do poeta Jonas Rezende, que dizem: “ Se Deus é um mito, se o amor é uma farsa, se é falsa a razão, se não somos nada, o mundo acabou”.

                                                            
                                                                





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