Ah. Apenas uma mulher. Sem anseios, nem sonhos, nem
aspirava a nada. Às vezes uma mulher concluia que, seu teto era seu mundo.
Mas...tempus fugit.
Começava então desapreciar-se. E quando tudo lá quietinho, guardado, não se
mexe, nem vem à tona, vai bem. Porém começava a latejar em seu ser a vida. A
vontade de passear, conhecer novos horizontes, pessoas, lugares, tornava-se
latente e incomodava. E nesse "vivre pour vivre", vociferava-lhe a
desconexa realidade.
Estando já com aquela vida "até as tampas” e,
conservando apenas gravadas indeléveis lembranças alhures, de bons tempos, onde
pode absorver o melhor. Salva pelo bom gosto e pela toda elegância podia
rechaçar com maestria, ao ramerrão que a envolvia. Pude lhe assistir de longe, seu sucumbir a uma mesmice dolorosa
e cruciante.
Em tardes mornas de outono, quando o sol já abrandando,
sabia-a recolhida ao piano, fazendo juz a Nossa Senhora, num Angelus de dor,
cujo semblante num ricto de amargor, fazia ecoar pelos arrebaldes, a destreza
de seus longos dedos. Amava também a música erudita, que como dizia: fazia-na
comungar com a eternidade. Conhecia-lhe o gosto pela sonata de Mozart, em lá
maior. O Prelúdio da "Gota dágua" de Chopin, entre outras.
Mas qual criança que observa o brinquedo, sem o
possui-lo, assim eu seguia. Penso que os meus dias estéreis e cada vez mais
monótonos, já se resumiam em Lorna, a única, a derradeira. Penso sabia mais de
sua vida, que ela própria, naquele seu mundo limitado e pequeno.
Heroi da guerra civil de 1936 a 1939, na Espanha. Quando
seu marido veio a falecer, sendo ele meu irmão. Mas... a vida seguia. E eu por
seu cunhado e admirador em segredo, mas a sabia e só isso me bastava. Em uma
dessas manhas calorentas de janeiro, fui ter com Lorna, para serviços de
correio.
Encontrei-a em seus jardins de trevo, malva, romãs e
manacás, trajando um vestido de uma seda florida e um lindo chapéu de palha
chique, que lhe adornavao rosto delicado, de tez alva e labios finos. Sua
silhueta indelevelmente suave deteve-me ao longe, observando-lhe a delicadeza
de gestos.
Pensei: Não queria terminasse aquele momento de arroubo,
ante aquela visão. E num flash fui dando vazão ao todo arrebatamento e
reminiscências, que ao longo, foram fazendo vulto. Há momentos que se eternizam
para todo o sempre. E aquele, o foi.
Bem. Essas são minhas memórias em vida ainda. Lorna e meu
irmão, quando casados, viviam monotonamente assim, como as águias, que voam em
meio à tempestade. Elas nem batem as asas. Apenas deixam-se levar. Flutuam.
Digo: Como numa compulsão prática. Apenas fazer. Quem anda duzentos metros, sem
vontade, anda seguindo o próprio funeral. Vestindo a própria mortalha. Às vezes
me pego pensando que meu irmão deixou-se morrer. Pois quando no confronto, em
ordens expressas para recuar, não o fez. Ele amava Lorna, de um modo tal, que a
considerava ímpar, singular, entre todas as mulheres. Decerto não sabia como
fazê-la feliz.
Não pude saber, pois quando ele em vida, eu morava na
Espanha e não conhecia a adorável Lorna. Apenas sabia-a. Penso: Meu irmão
Eliot, tinha os fios, mas não conseguia tricotar o pulôver.
Vim travar conhecimento com Lorna, quando vindo da
Espanha, após alguns anos do fim da guerra, devido ao racionamento e a
reconstrução na arquitetura devastada. Meu irmão com muitos imoveis alugados e
"para tocar" com os trâmites de imobiliária, Lorna pediu que eu
tomasse à frente e desse continuidade, ao que deixou Eliot.
Aos poucos fui inteirando-me das pendências e também me
apaixonando platônicamente pela viúva de meu irmão. Lorna dorida pela saudade
do esposo e um tanto apática, deixava-se estar em seus aposentos, quedando
alheia aos negócios, deixando-se estar em "seu mausoléo" de dor.
Nas horas que não pensava, e que pensava nela, eu
escrevia. Mas nunca cheguei a publicar nada. Sempre gostei de crônicas, elas
são instantâneas, fotogrâficas. O meu prazer está nas coisas pequenas: Na cena,
no fragmento. Penso que Lorna, estava em tudo o que eu escrevia. De certa
forma. Direta ou indiretamente. Por vezes algumas anotações soltas.
Só pelo prazer de escrever e após, lamber as palavras. Porém
também eu tinha fixação, por ouvir alguns adágios de sonatas de Beethoven. Às
vezes sinto-me um covarde, por nunca ter me declarado a Lorna. Penso que por
tão misteriosa e linda, jogava-me a distância, como que se protegendo em uma
bolha.
Acho que sou apenas um bufão, sou poeta, sou criança, só
não consigo adentrar nessa bolha, que se chama Lorna. Bem... Cada qual encerra
em si, sua lenda, seu contexto, sua dor. E penso que, quem ama não vê direito.
Isso a ciência não pode suportar. Sabe, concordo às vezes, que o objeto não
seja tocado. Qualquer toque o contamina. Como a brancura da pétala de uma
camélia, fica negra ao toque do dedo.
E às vezes penso que, a mente sendo ardiloza, cria
estratégias, para que eu pense assim. Sei que hoje nos meus quase oitenta anos
vivo as lembranças todas, de um passado que não feliz, diria, porém o melhor,
que um homem, dentro de seu celibatário, poderia ter.
Lorna já partiu há alguns anos, levando com ela uma
grande parte de meu ser. E num ritmo "vociferante", ouço música,
escrevo minhas crônicas, passeio pelo meu jardim e vou á missa aos domingos,
para não enlouquecer. Asseguro que posso viver, com as lembranças da minha
amada. Ontem pela manhã, um canário "amanheceu-me".
Hoje amparado pela bengala, vou ao portão buscar as
correspondências. E, assim tento viver dia após dia, embalado pela certeza do
meu fim. Já não "toco mais negócio". Passei tudo para um único irmão
de Lorna. Minhas mãos tremem muito e também não consigo balbuciar as palavras
direito. Duas enfermeiras jovens e duas empregadas tentam cuidar desse velho
resmungão. Decerto que eu tinha que prosseguir. Decerto.
O último fulgor do poente mergulhava no ocidente,
lançando clarões de um âmbar dourado, sobre o pomar, no qual me detive estirado
em uma espreguiçadeira. Um rápido aguaceiro encharcara tudo uma hora antes, e
agora o entardecer de verão, parecia fresco e renovado e, devido á luz que se
esvaia quase que surreal. Uma meia lua pairava acima.
As lembranças mais que nunca, me atormentavam, nessa
tarde. Balbuciei o nome Lorna e deixei-me estar por mais um tempo ali fora.
Bem... Só espero então a hora derradeira. Pois que acreditando na
espiritualidade que se me aflora, penso encontrar o meu grande amor.
Aquela que minha imaginação criou, numa versão
fantasmagórica, cuja agora envolta numa névoa densa, longuiqua. Onde bailam os
fantasmas, de quem aqui tanto deslumbrou.
Quiça ela saiba, lá onde os anjos, sempre sabem. O quanto
foi querida, amada e idolatrada.
Os anjos sempre sabem.
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