Apenas uma Mulher- Maria Izabel Fellippe-Cerdeira



Ah. Apenas uma mulher. Sem anseios, nem sonhos, nem aspirava a nada. Às vezes uma mulher concluia que, seu teto era seu mundo. Mas...tempus fugit.
Começava então desapreciar-se. E quando tudo lá quietinho, guardado, não se mexe, nem vem à tona, vai bem. Porém começava a latejar em seu ser a vida. A vontade de passear, conhecer novos horizontes, pessoas, lugares, tornava-se latente e incomodava. E nesse "vivre pour vivre", vociferava-lhe a desconexa realidade.
Estando já com aquela vida "até as tampas” e, conservando apenas gravadas indeléveis lembranças alhures, de bons tempos, onde pode absorver o melhor. Salva pelo bom gosto e pela toda elegância podia rechaçar com maestria, ao ramerrão que a envolvia.       Pude lhe assistir de longe, seu sucumbir a uma mesmice dolorosa e cruciante.
Em tardes mornas de outono, quando o sol já abrandando, sabia-a recolhida ao piano, fazendo juz a Nossa Senhora, num Angelus de dor, cujo semblante num ricto de amargor, fazia ecoar pelos arrebaldes, a destreza de seus longos dedos. Amava também a música erudita, que como dizia: fazia-na comungar com a eternidade. Conhecia-lhe o gosto pela sonata de Mozart, em lá maior. O Prelúdio da "Gota dágua" de Chopin, entre outras.
Mas qual criança que observa o brinquedo, sem o possui-lo, assim eu seguia. Penso que os meus dias estéreis e cada vez mais monótonos, já se resumiam em Lorna, a única, a derradeira. Penso sabia mais de sua vida, que ela própria, naquele seu mundo limitado e pequeno.
Heroi da guerra civil de 1936 a 1939, na Espanha. Quando seu marido veio a falecer, sendo ele meu irmão. Mas... a vida seguia. E eu por seu cunhado e admirador em segredo, mas a sabia e só isso me bastava. Em uma dessas manhas calorentas de janeiro, fui ter com Lorna, para serviços de correio.
Encontrei-a em seus jardins de trevo, malva, romãs e manacás, trajando um vestido de uma seda florida e um lindo chapéu de palha chique, que lhe adornavao rosto delicado, de tez alva e labios finos. Sua silhueta indelevelmente suave deteve-me ao longe, observando-lhe a delicadeza de gestos.
Pensei: Não queria terminasse aquele momento de arroubo, ante aquela visão. E num flash fui dando vazão ao todo arrebatamento e reminiscências, que ao longo, foram fazendo vulto. Há momentos que se eternizam para todo o sempre. E aquele, o foi.
Bem. Essas são minhas memórias em vida ainda. Lorna e meu irmão, quando casados, viviam monotonamente assim, como as águias, que voam em meio à tempestade. Elas nem batem as asas. Apenas deixam-se levar. Flutuam. Digo: Como numa compulsão prática. Apenas fazer. Quem anda duzentos metros, sem vontade, anda seguindo o próprio funeral. Vestindo a própria mortalha. Às vezes me pego pensando que meu irmão deixou-se morrer. Pois quando no confronto, em ordens expressas para recuar, não o fez. Ele amava Lorna, de um modo tal, que a considerava ímpar, singular, entre todas as mulheres. Decerto não sabia como fazê-la feliz.
Não pude saber, pois quando ele em vida, eu morava na Espanha e não conhecia a adorável Lorna. Apenas sabia-a. Penso: Meu irmão Eliot, tinha os fios, mas não conseguia tricotar o pulôver.
Vim travar conhecimento com Lorna, quando vindo da Espanha, após alguns anos do fim da guerra, devido ao racionamento e a reconstrução na arquitetura devastada. Meu irmão com muitos imoveis alugados e "para tocar" com os trâmites de imobiliária, Lorna pediu que eu tomasse à frente e desse continuidade, ao que deixou Eliot.
Aos poucos fui inteirando-me das pendências e também me apaixonando platônicamente pela viúva de meu irmão. Lorna dorida pela saudade do esposo e um tanto apática, deixava-se estar em seus aposentos, quedando alheia aos negócios, deixando-se estar em "seu mausoléo" de dor.
Nas horas que não pensava, e que pensava nela, eu escrevia. Mas nunca cheguei a publicar nada. Sempre gostei de crônicas, elas são instantâneas, fotogrâficas. O meu prazer está nas coisas pequenas: Na cena, no fragmento. Penso que Lorna, estava em tudo o que eu escrevia. De certa forma. Direta ou indiretamente. Por vezes algumas anotações soltas.
Só pelo prazer de escrever e após, lamber as palavras. Porém também eu tinha fixação, por ouvir alguns adágios de sonatas de Beethoven. Às vezes sinto-me um covarde, por nunca ter me declarado a Lorna. Penso que por tão misteriosa e linda, jogava-me a distância, como que se protegendo em uma bolha.
Acho que sou apenas um bufão, sou poeta, sou criança, só não consigo adentrar nessa bolha, que se chama Lorna. Bem... Cada qual encerra em si, sua lenda, seu contexto, sua dor. E penso que, quem ama não vê direito. Isso a ciência não pode suportar. Sabe, concordo às vezes, que o objeto não seja tocado. Qualquer toque o contamina. Como a brancura da pétala de uma camélia, fica negra ao toque do dedo.
E às vezes penso que, a mente sendo ardiloza, cria estratégias, para que eu pense assim. Sei que hoje nos meus quase oitenta anos vivo as lembranças todas, de um passado que não feliz, diria, porém o melhor, que um homem, dentro de seu celibatário, poderia ter.
Lorna já partiu há alguns anos, levando com ela uma grande parte de meu ser. E num ritmo "vociferante", ouço música, escrevo minhas crônicas, passeio pelo meu jardim e vou á missa aos domingos, para não enlouquecer. Asseguro que posso viver, com as lembranças da minha amada. Ontem pela manhã, um canário "amanheceu-me".
Hoje amparado pela bengala, vou ao portão buscar as correspondências. E, assim tento viver dia após dia, embalado pela certeza do meu fim. Já não "toco mais negócio". Passei tudo para um único irmão de Lorna. Minhas mãos tremem muito e também não consigo balbuciar as palavras direito. Duas enfermeiras jovens e duas empregadas tentam cuidar desse velho resmungão. Decerto que eu tinha que prosseguir. Decerto.
O último fulgor do poente mergulhava no ocidente, lançando clarões de um âmbar dourado, sobre o pomar, no qual me detive estirado em uma espreguiçadeira. Um rápido aguaceiro encharcara tudo uma hora antes, e agora o entardecer de verão, parecia fresco e renovado e, devido á luz que se esvaia quase que surreal. Uma meia lua pairava acima.
As lembranças mais que nunca, me atormentavam, nessa tarde. Balbuciei o nome Lorna e deixei-me estar por mais um tempo ali fora. Bem... Só espero então a hora derradeira. Pois que acreditando na espiritualidade que se me aflora, penso encontrar o meu grande amor.
Aquela que minha imaginação criou, numa versão fantasmagórica, cuja agora envolta numa névoa densa, longuiqua. Onde bailam os fantasmas, de quem aqui tanto deslumbrou.
Quiça ela saiba, lá onde os anjos, sempre sabem. O quanto foi querida, amada e idolatrada.
Os anjos sempre sabem.





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