Sabe Sofia,
Ribeirão nem sempre foi assim. Quando a vó era criança pequena como você, podia
ouvir ruído das patas dos cavalos e de longe eu já sabia quem vinha: o
leiteiro.
O cavalo
puxava a carrocinha que continha os engradados com os litros de vidros e a
tampinha de alumínio.
Ainda me
lembro de ter visto também as grandes pedras retangulares de gelo para as
pessoas que ainda não possuíam geladeiras.
A Nove de
Julho hoje tão mudada! Lá no começo ficava a Recra, e aquele obelisco que hoje
fica no cruzamento com a Independência, ficava próximo à Recreativa. Lá pelos
idos de 1950, ela ainda não tinha asfalto, nem o canteiro central com as
pedrinhas portuguesas e as sibipirunas. Eu me lembro bem dos homens fazendo
esse calçamento. Havia lindos postes de luz, aqueles que hoje estão na Praça
XV.
A cidade era
mais silenciosa, poucos carros, ruídos ao longe quebrados, de quando em quando,
pela buzina do amolador ou do peixeiro:
-
Sardinhaaaaaaaaaaaaaaa, peixe fresco!
Ainda ressoa
em meus ouvidos o som do vendedor. À noitinha, tinha-se o hábito de sair para a
rua. Muitos se sentavam nas varandas, outros carregavam as cadeiras para a
calçada, observando o movimento ou conversando com os vizinhos, e vizinhança
era coisa séria, quantas estórias, quantos amores, quantos quereres. Guardo tão
bem guardado o nome, os jeitos de cada um deles.
Tudo era
possível: não tínhamos ainda a televisão. Ainda se gastavam horas olhando as
estrelas, a jogar amarelinha, guerra, pique-esconde, roda, passa anel, pular
corda.
Antes o tempo
era tão curto pra tanta coisa gostosa. Lá no Clube de Regatas tinha um
“chiquerinho”, uma espécie de engradado de madeira colocado dentro do rio, onde
as crianças podiam nadar em segurança. Que delícia aquela água barrenta, aquele
cheiro de rio!
Também havia
o terceiro trampolim da Recra. Só os corajosos se aventuravam a pular daquela
altura!
E a Banda da
Praça Sete? Ah! Todos nós carregamos uma criança com nostalgia de ouvir a
banda.
Na escola
todos sabiam os Hinos: o Nacional, da Bandeira, da Proclamação da República, e
a vó ainda sabia o de Ribeirão Preto, que diz tão lindo:
”A minha
terra é um coração,
Aberta ao sol
pelas enxadas...”
Ah! Também
havia procissões:
Era tão
emocionante a da Sexta da Paixão, a Verônica a cantar, toda de negro,
desenrolando o lenço com o rosto de Jesus. Aquela multidão silente com as velas
acesas, os cânticos fúnebres e tanto recolhimento. Era muito, muito lindo!
A Semana
Santa era um programa, íamos à igreja brincar de fazer via sacra e logo já
inventávamos um jogo: quem havia feito mais vias sacras era o campeão. Toda
procissão que se prezasse tinha crianças vestidas de anjos. Camisolas de cetim,
asas de pena e coroinha na cabeça.
Foi muito
legal a vinda das irmãs do Colégio Vita eT Pax. A partir daí nas representações
e natais os anjos passaram a ser de cores vibrantes, ora turquesa, amarelo,
ouro, rosa choque.
Brinquedos,
Sofia? Muito poucos... alguma boneca, jogo de panelinhas, uma bola, uma peteca.
Tudo cabia numa caixa. Não fazia falta, porque a imaginação corria solta,
buscava-se “caquinhos” no quintal, montava-se a casinha na terra, as frutas
viravam cavalos ou vacas, as cercas de palito. A água que não podia faltar.
O tempo
passava suave, construindo e fortalecendo o coração da menina que continha a
vó.
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